Querido diário,
Hoje eu fiz purê de saquinho
Querido diário,
Hoje eu fiz purê de saquinho. Sim, purê de batata desidratada com sabor manteiga. Enquanto cozinho brócolis numa Airfryer.
As coisas mudaram, meus caros.
Na verdade, estou tentando aprender a poupar energia. Obviamente, não fui eu quem comprou o purê instantâneo mas achei um bom momento para usá-lo já que se encontrava na minha frente.
Estou trabalhando agora em um Lagoon 52 pés, estou no primeiro charter aqui. Jajá saem os clientes e chegam mais seis. Minha cabeça tem pensado em muitas coisas pra escrever, mas meu corpo tem aprendido a fazer siesta, ler um pouquinho e descansar em vez de escrever.
Preciso confessar que não consigo parar de escutar o Tiny Desk do Bad Bunny. Sério. O ritmo, a banda, o espanhol, toda história têm me fascinado. Até acontecer o tal do SuperBowl eu nunca tinha ouvido falar de ambos. A princípio, fui assisti-lo porque só aparecia isso no Instagram. Não sei se foi um pouco daquele tal sentimento de estar perdendo algo que todos estão falando. Mas depois de entender o contexto, os detalhes, foi ficando cada vez mais interessante.
Me conectou com o período que naveguei por várias ilhas caribenhas, dos muitos retratos do colonialismo e da escravidão que conheci e todo o combo cultural que muitas vezes nem damos valor. Fazia tempo que eu não ficava obcecada por alguma coisa.
Eu me lembro de ficar indignada de ouvir cruzeiristas (velejadores que estão navegando pelo mundo) dizerem que o Caribe não tinha história, que era pobre culturalmente. Eu acredito que eles é que não queriam ver nem entender a história que o Caribe conta.
Eu tinha no meu imaginário que o Caribe consistia em lugares muito turísticos, ostentação de drinques em praias de areia branca, água turquesa, sombra fresca de coqueiros, resorts luxuosos, clima tropical e salsa. Eu conheci alguma coisa dessa versão quando fui ao México 10 anos atrás. Mas me surpreendi ao chegar em Tobago e não encontrar nada feito para turista. Assim como em outras ilhas que visitei.
Foi um choque a princípio não encontrar uma “fantasia turística”. Em vez disso, eu pude conhecer um pouco, e foi bem pouco na verdade mesmo, de um povo de uma origem bem similar à nossa origem. Passei a me orgulhar mais de traços, sabores e ritmos que até então eu não ligava muito. Quando eu era mais nova, tinha uma admiração enorme pelo que era de fora, mais precisamente europeu. Mas viajar por esses países da América Latina me trouxe uma outra perspectiva sobre a nossa própria cultura, e agora, cozinhando, tenho a oportunidade de olhar e resgatar minhas raízes com ingredientes, técnicas e temperos.
A mesma coisa acontece aqui em Kuna Yala. Tenho a oportunidade de conhecer e conviver com povos originários que resistem. Me sinto um pouco triste de não conhecer um pouco mais do Brasil.
E ainda assim, o que os europeus e estadunidenses fazem? Vem aqui dominar a área, poluir, fazer dinheiro como se fosse um circo.
Sei lá. Eu sei que estou trabalhando nisso, mas mexe comigo pensar em todas essas coisas.
Preciso servir meu purê de saquinho, arrumar cabines numa fração de segundos e receber novos gringos com sorriso no rosto logo mais. Quem sabe trago atualizações mais detalhadas depois do jantar. Ah! Ainda não fiz a sobremesa, socorro.
Hasta luego!
