Proa ao sul
É noite e o barco está aproado pras montanhas. Uma brisa suave mas bem fresca massageia meu rosto e mexe com meus cabelos. Ouço o som da mata, dos insetos da noite. Olho adiante, o cruzeiro do sul é quem aponta o rumo que a minha vida segue agora.
O mar está calmo, calmo. Acabo de vir do povoado, com o dinghy deslizando no mar feito um tapete mágico, observada pelas estrelas e seguida pela luz do luar.
Caio no sono coberta pelo sereno, deitada em uma superfície nada anatômica. Meu corpo começa a resfriar, mas a noite me enfeitiça tanto que não quero sair do seu abraço.
Me desperto com os raios de sol invadindo a janela que deixei propositalmente com a cortina aberta. Meu estômago anuncia ruídos confusos de fome e/ou indigestão. Será que foi a mistura do pinot noir com Balboa da noite anterior ou culpa da hamburguesa con papas fritas?
O barco continua mirando para o continente. A brisa fresca, o cheiro de mata e os sons da natureza me atravessam.
Sento com meu café meio à luz do sol.
Me perco nos pensamentos do que preciso fazer ainda, do que vou fazer nos próximos dias, sobre a noite de ontem…
Eu que, ultimamente, ando carente de tudo e me queixando que quero estar acompanhada, quero compartilhar momentos… ontem estava no bar de Corazón de Jesús compartilhando a mesa de sinuca com amigos, na maioria Kunas, que fiz nessa jornada. Rimos, vibramos (minhas vitórias, pois estava com sorte) e foi tudo tão genuíno, amizades que se deram por convivência. Me sinto muito querida nas despedidas, ainda que não goste de dizer adeus.
Foi também a oportunidade de deixar as diferenças com minha colega para trás. O que me faz questionar se todos os conflitos e inimizade que tivemos foram criados pela minha cabeça ou só pelas circunstâncias?!?!
E pensar que eu decidi ficar aqui sem garantia de nada, só um sonho. Eu, definitivamente, não poderia prever tudo que eu vivi. Agora vou segura de ir. Olhando com carinho pro futuro que, por não ter planos concretos, pode me surpreender.
Volto na memória, e lembro das manhãs que eu sonhava com absolutamente tudo que eu conquistei até agora. Frequentemente, foco na ausência das coisas que desejo, no tardar das conquistas… mas em DEZ anos, ah! Talvez em quinze anos, eu conquistei absolutamente tudo que genuinamente eu mais queria e suplicava no escuro do meus abismos quando não via nenhuma luz no horizonte.
E aí que tá! Custa muito compreender que as conquistas não são imutáveis, estáveis, alcançáveis. São apenas passagens… não existe onde chegar e muito menos prêmio ou reconhecimento. A recompensa é muito mais sutil. A recompensa é poder seguir adiante, num trem finito rumo aos próximos sonhos… que não contenta-se em parar em nenhuma das estações e usa a inércia a favor do movimento.
Num trem pras estrelas… outras correntezas…
