Poco a poco
Meus pés afundam na areia molhada. Fico parada por alguns segundos esfregando-os na areia, como se o atrito fosse suficiente para fazer uma esfoliação completa. Caminho arrastando os pés na grama então. Sinto, ou imagino sentir, um aterramento. Como se toda minha energia acumulada se transferisse para o solo instantaneamente. Já fazia alguns dias em que eu não pisava em terra firme.
Encontro uma protuberância atraente no gramado, onde recosto confortavelmente no tronco de um coqueiro. Despejo meu corpo ali, de qualquer maneira, sobre uma canga. Escuto os ruídos das ondas ao fundo quebrando-se na barreira de corais. Sinto uma brisa bem fresca soprar nos meus cabelos que se encontram libertos. Fecho os olhos e reflito o quão agradável estava ali, aquela sombra fresca do coqueiro. Abro os olhos rapidamente, assustada, mirando os possíveis cocos que poderiam cair sobre a minha cabeça num momento de descuido. Por sorte, escolho um coqueiro sem cocos. Observo o entorno e todos os outros estão carregados. Ufa. Acho que tenho sorte mesmo, faço escolhas certas até mesmo quando estou distraída, agradeço.
Os clientes estão caminhando na praia na minha direção. Escolhi uma extremidade afastada para evita-los. Endireito a minha postura e tiro um livro da bolsa, assim posso evitar o contato visual fingindo nem perceber a sua presença, mas enquanto isso, observo a dança das ondas no horizonte por cima do livro.
Meu novo-futuro capitão, me emprestou este livro que se chama “La Buena Sorte”, até o momento eu estava lendo pouco a pouco mas ansiosa para o desenrolar da história que conta a diferença entre a sorte e a boa sorte.
São essas pequenas sensações, após muita privação, que fazem a vida brilhar de novo e me lembram como é importante sair do barco de vez em quando. Se eu fizesse isso todos os dias, talvez não estivesse nem mais percebendo o tato da areia, a brisa no rosto, a sombra na pele. A vida se revela nos contrastes, nas ausências. Talvez eu passasse até a reclamar da areia… quiçá? Percebo que a grama remove perfeitamente todos os grãos de areia dos meus pés. A natureza é mesmo perfeita.
Só estou aqui na praia porque, milagrosamente, o capitão me disse que queria fazer o jantar. Fiquei tão feliz! Este capitão atual também cozinha muito bem, me disseram. Desfruto de cada segundo nessa ilha chamada Morrodub até o Levi me encontrar. Depois vamos para Banedup, onde há o restaurante mais famoso de Kuna Yala. O Levi, o marinheiro com quem estou trabalhando, é sobrinho do dono. Ajudo umas senhoras a carregar seus galões de água doce. Sento em uma cadeira de frente para o mar e tiro fotos como se fosse turista. Nossos clientes saem para caminhar e enquanto isso me junto a uns velejadores para jogar voleibol.
Estou tão aliviada que meu pulso direito não tem se manifestado. Depois que voltei do Brasil, tomei anti-inflamatório por alguns dias e somado ao repouso, me parece ter funcionado muito bem para aliviar o desconforto da possível síndrome do túnel do carpo que descobri após fazer uns exames na minha curta estadia em terras tupiniquins.
Esqueço de tudo da minha vida por alguns minutos de pura concentração para não deixar a bola de vôlei cair, muitas risadas e coração agitado. O time entrega tudo mas mesmo assim perdemos duas vezes. Os clientes voltam e me lembro que ainda estou a trabalho.
Nessa noite, tomei banho e um drinque antes do jantar. Foi como um sonho, sem contar que tive tempo de dar um mergulho no mar mais cedo também! Quebrar a rotina é minha coisa preferida da vida, mesmo que os dias sejam todos diferentes, ainda é uma rotina exaustiva de trabalho. Contudo, acho bem mais tranquilo do que quando eu trabalhava na lancha em Paraty. Aqui pelo menos sou vista como gente e não como escrava, os clientes, a maioria deles, pelo menos, se interessam pela nossa vida e valorizam nosso trabalho. Além disso, também tenho momentos de descanso e o clima é bem mais relaxado. Apesar de que lá eram poucos dias seguidos. Já contei pra vocês de quando fui marinheira nessa lancha?
Meus dias no Dule Masi foram intensos e gostosos. Apesar de ser cansativo trocar de barco inúmeras vezes, o barco é do mesmo modelo, um Fountaine Pajout Salina 48, que o Mambo Diablo que trabalhei anteriormente. Eu estava substituindo a cozinheira por um par de charters. Só de estar longe da minha ex-colega, minha vida mudou completamente. Ali, substituindo uma outra colega, que dizem que é excelente cozinheira, e sob o olhar do capitão-cozinheiro, eu tinha vontade de tentar impressionar. A verdade é que só de mudar para um ambiente mais harmonioso, ouvir e receber apoio em vez de críticas, saíram coisas incríveis da cozinha..
Fiz meu primeiro Surf'n'Turf: lagosta grelhada com bacon crocante e molho holandês. Consegui fazer peito de frango de muitas maneiras diferentes, fiz minhas primeiras casquinhas de cangrejo e até mesmo um penne ao molho de espinafre com bacon e nozes caramelizadas, inspiração que veio depois da siesta em uma noite em que não fazia ideia do que fazer.
Estou tentando viver um dia de cada vez, sem pensar muito nos possíveis sofrimentos futuros. Sem postergar coisas, seguindo, pouco a pouco. Você já leu o livro “A Boa Sorte"?

Bem na vibe daquela música dos Titãs: O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído (só cuidado com os cocos caindo!) Ainda não li esse livro, mas para mim, 'dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César' significa separar as coisas: a Deus, deixamos a sorte de nossas boas e más aventuras: a César, dedicamos aquilo que de fato está no nosso poder e controle. O livro vai por esse caminho? Depois manda uma resenha aqui!