Pessoas vêm e vão
mas nunca em vão
De repente, vivendo um dia de cada vez… oito meses passaram
A vida não é só fazer as coisas que a gente gosta e desfrutar todo o tempo. Talvez seja sobre ter que fazer muitos sacrifícios, fazer coisas que você não gosta toda manhã para depois ser capaz de fazer as coisas que você não gosta para o seu próprio bem. Além de dar muito mais valor para os raros momentos de prazer.
Era 6h30 e o sol já queimava minha pele. O mar estava aveludado feito um tapete, as nuvens enlaçadas na montanha se dissipando e os pássaros negros cantando entre as árvores de Cambombia. Contemplo o sol, emergindo, que queima a minha vista enquanto elaboró meu ponto de vista sobre viagens com um mochileiro francês com quem vinha combinando um encontro. Recebo uma mensagem fofa e um convite da capitã sulafricana com quem naveguei para, simplesmente, navegar do mediterrâneo até o Brasil no seu retorno.
Um dia desses cheios de emoções.
Meu último amanhecer em Kuna Yala.
Nem acredito que levantei da cama naturalmente tão cedo. Ontem foi um dia cheio, fazia tempo que eu não dava tantas boas risadas. Saímos de caiaque para fazer snorkeling, só as meninas, nadamos um montão, corremos na praia e depois comemoramos a nossa partida com amigos queridos que estavam aqui quando chegamos e outros que acabaram de chegar.
Despedidas nem sempre são tristes, devíamos mesmo comemorar os necessários recomeços cheios de gratidão e nostalgia.
Uma pena que esquecemos de tirar fotos de todos juntos.
Meus olhos se enchem de lágrimas num balanço rápido que percebo que aqui nunca estive só. Foram bem poucos momentos que compartilhamos juntos, entre amigos, mas todo o tempo torcemos por todos e admiramos uns ao outros. As conexões que o mar proporciona têm outra qualidade. Dizemos adeus seguindo nossos próprios rumos mas sabendo que a qualquer momento da vida nos esbarraremos por aí de novo, seja aqui, num barco ou qualquer lugar do mundo.
Sem contar o carinho que recebi esse tempo dos locais com quem convivi, tenho um lugar aqui no Corazón de Jesús, acredito ter deixado um rastro positivo.
Arrumo minhas coisas todas e gravamos uma entrevista para o canal do SailingNaboa onde conto um pouco sobre a minha trajetória. Eu estava bem envergonhada mas fazia tempo que eles falavam em gravar um episódio comigo e achei o momento bem propício para marcar essa fase de encerramento e recomeço. Difícil mesmo é me fazer contar histórias sem detalhes.
A lancha que ia me buscar chegou pontualmente e parti, de verdade, rumo à Nargana. Um turista estranho desembarcou meio perdido no mesmo porto. Eu tentei lhe oferecer alguma ajuda já que eu sim estava em um ambiente familiar. Há poucas hospedagens no povoado, na verdade, a primeira que lhe mostrei era só para os professores e não havia vagas. Então, seguimos até meu restaurante favorito ‘La Fonda de Doña Hermelinda’ que descobri ser uma espécie de albergue também. Pois José, então descobri seu nome, me ajudou a carregar minha mala, era colombiano e me disse estar em viagem para escrever sobre espiritualidade. Está no lugar certo, eu lhe respondi, pois os Kunas tem uma conexão muito forte com a natureza e eu posso compartilhar o pouco que aprendi e lhe dar algumas direções e contatos.
Eu tinha muitas horas livres até o meu vôo para a Cidade do Panamá, fiquei surpresa com a conexão de assunto com esse senhor e o convidei para me fazer companhia no almoço.
Talvez por ser domingo, não sei, mas o prato estava diferente. Era arroz feito com coco, feijão, com cenoura, em vez de lentilhas, salada e carne picada com vegetais, que foi minha escolha. Estava más rica até, la comida.
Entre as garfadas famintas, eu no meu prato carnívoro e José em seu prato vegetariano, conversamos sobre meditação Vipassana, cultura Kuna, Taoísmo, Yoga, Tantra, Tarot, dragões, almas, reencarnações e por aí vai... Depois saímos a caminhar em pleno sol do meio-dia e sentamos em uma sombra que batia uma brisa fresca mas que trazia cheiro de chorume da lixeira que aparentemente não era esvaziada há um bom tempo.
Seguimos conversando como se já fossemos íntimos e soubéssemos o suficiente sobre o outro até ele me revelar que estava saindo dos EUA, sem passaporte, e queria regressar a Colombia de barco.
Confesso que a princípio me senti uma pessoa de muita sorte por receber uma companhia divina com assuntos tão interessantes que, seguramente, me trariam algum aprendizado, mas depois me senti tola e meio desconfortável por talvez estar me expondo a perigos ou a um charlatão, quiçá que me cobraria por todos os conhecimentos que estava compartilhando e pelas cartas de tarot que me ofereceu tirar.
Mas me senti tola mesmo por acreditar que um turista estaria ali para escrever sobre espiritualidade e não tentando passar despercebido por fronteiras. Aproveitei uma deixa qualquer para lhe dizer ‘adeus’ e talvez em torno de um mês receberei notícias suas e de seus estudos sobre espiritualidade, eu lhe pedi um retorno, curiosa que sou.
Eu estava em tamanho êxtase e alto astral que ele disse perceber minha alma ativa e que eu nem precisava das cartas de tarot pois já tinha suficiente clareza do rumo a seguir. Aí já parecia papo de doido mesmo, mas devo revelar que prefiro participar de qualquer diálogo aleatório do que medíocre. Confesso que queria muito ver o que ia sair nas cartas pois, no fim das contas, a busca por quaisquer sinais que afirmem minhas escolhas é melhor do que seguir apenas uma fé crua num caminho desconhecido e sem planos que vez ou outra opto em acreditar.
Adoro essa sensação de estar no flow da natureza, confiando nos caminhos que vão se abrindo e no meu norte magnético. Eu acredito nas sincronicidades, no diálogo louco que a vida tem comigo.
Pessoas vêm e vão mas nunca em vão.
Disso eu tenho certeza.
Continua…








Vi a entrevista ontem! Deu até vontade de propor o jogo de tarô para você… mas concordo com ele: você já tem clareza sobre onde ir.