O atravessar do passado
Ao caminhar pelas bucólicas ruas de São Sebastião sou atravessada pelo meu passado, sem nem pedir licença. Sento em um dos bancos da praça, bem em frente à antiga casa que deu vida ao ‘La Petite’ (o meu restaurante). As cores da fachada já não são mais as mesmas, mas ainda assim, pouco mudou por dentro e também no entorno. Peço um café e um folhado na minha padaria preferida, que ainda não existia naquela época. Tento dar continuidade na leitura do ‘A insustentável leveza do ser’ mas os olhos fogem distraídos com o movimento acelerado das pessoas transitando nas proximidades.
Reconheço a voz de uma moça que era minha cliente assídua sentada na mesa mais próxima. Será que ela vai me reconhecer, me pergunto. Evito ser vista e qualquer diálogo sem graça. Mas meu olhar vai de encontro a de uma outra cliente que passa por mim, e me diz “Sinto falta da sua comidinha!”. Sorrio, alegre. Olho para trás no intuito de ser localizada pelo meu café, já que estava escondida por uma majestosa árvore da praça. Rapidamente me viro de volta e me afundo entre as páginas do livro para não encarar o olhar de quem eu acabei de ver.
Há muitos anos que eu não a via, ela foi quem me impulsionou a começar a vender doces, na época da escola, na adolescência. Quando criança, eu tinha um pouco de implicância com seu jeito, mas depois nos tornamos muito amigas e iniciamos este negócio de cupcakes. Bastou ela me sugerir a ideia e dali eu já comprei uma revista de receitas, os ingredientes, forminhas e confeitos e começamos a produzir, a princípio, como brincadeira mas eu sempre levei os negócios muito a sério. Tanto que brigamos logo em seguida por divergência de opiniões, e essa foi a primeira experiência de sociedade que, obviamente, não deu certo. Me lembro bem que ela roubava Toddynho de crianças da geladeira da escola onde colocávamos nossos cupcakes. Eu nunca aceitei tamanha falha de caráter. Faltei a aula um dia após a discussão que levou ao nosso rompimento e ela me difamou para a sala inteira. Uma leve lembrança me traz o fervor do meu sangue na saída da escola e acho que fui acertar umas contas.
Eu tinha uns dezesseis anos e em todas as segundas-feiras no período da tarde, eu separava os materiais, ia ao mercadinho próximo de casa para comprar os ingredientes, pegava um ônibus e subia um morro com pelo menos duas sacolas bem pesadas para chegar na casa dela. Eu fazia o trabalho pesado, enquanto ela só queria opinar e variar nas cores das forminhas e queria ser a única que confeitava os cupcakes (o que julgávamos ser a parte mais legal). Eu ainda lavava a louça e ia embora no final da tarde, de ônibus, depois dos pais dela se apoderarem de uma boa parte da produção. Fiado. Nunca vou me esquecer do dia em que a mãe dela me deu uma carona até o ponto de ônibus e disse que não poderia ficar ali comigo porque era muito perigoso e jamais deixaria a filha sozinha em casa, e eu, carregava todo o dinheiro das nossas vendas na mochila. Bem, isso foi quando nasceram os ‘Cupcakes do Amor’ e ela sempre me zoou que eu não era uma empresa. Hoje em dia, ela está casada com o ex-namorado da minha melhor amiga e, na hora eu tinha me esquecido, mas nosso encontro ‘casual’ foi no dia de seu aniversário.
Todo este clipe passou pela minha cabeça no momento que nossos olhares se cruzaram. Eu deveria ter ido lá dizer ‘olá’ como se nada…? Seria maduro da minha parte ou desnecessário?
Mas eu não reagi.
Usei do meu livro, e da minha posição estratégica, para fingir que não os tinha visto e fui embora.
Mas as lembranças do passado não pararam por aí…
O rapaz que me serviu o café foi um brevíssimo romance nos meus vinte e poucos mas eu não fugi dessa interação, até porque ele é bem bacana. Mas ainda assim me impressiona essa sensação de ser atingida pela avalanche das memórias e as entrelinhas existentes entre dois olhares e um ‘oi, tudo bem?’. Não porque esses encontros significam algo de concreto, mas porque sei que cada indivíduo tem lembranças e sentimentos distintos sobre essas mesmas histórias e eu não sei o que ficou de mim em cada um deles.
Eu senti os efeitos da ausência do pertencimento enquanto estive fora. É este passado que assombra, me perseguindo em cada esquina, que me faz pertencer. Se estou em um lugar que sou conhecida, sou vista, eu existo e as histórias se cruzam. Mas se ando pelas ruas da Cidade do Panamá, por exemplo, não sou ninguém além de mais uma mulher. Esse mesmo reconhecimento que, por vezes, é gratificante, por outras, é sufocante.
Quem nunca desejou ser ninguém? Estar invisível? Contar novas histórias e criar-se a partir de uma folha em branco?
Encaro mais uma contradição da vida humana: pertencer ou não pertencer, eis a questão!
Por muito tempo, andar na rua e ser reconhecida era um fardo que eu carregava comigo. Talvez este medo surja quando se deixa pontas soltas no passado causando os desconfortos do futuro. Pois se sou uma pessoa consciente dos meus passos, não deveria temer o atravessar do passado.
E se fugimos de nos reconhecer diante dos outros, ainda assim nos encontramos mesmo na solidão. Podemos fingir não ver, mas os condicionamentos do passado nos perseguirão para todo o sempre.
Talvez a busca por recomeçar seja o medo de encarar as verdades que existem por trás das novas máscaras que criei. E quando volto para o lugar de onde vim, sou obrigada a lidar com todo o rastro que deixei, as pessoas que cativei, as vergonhas que passei, as projeções que muitos fizeram em mim… Talvez o medo de a nova eu ser oprimida pelo olhar do passado, seja porque encará-lo é mais desafiador do que encarar o desconhecido que os recomeços sopram.
Então agora eu sei que prefiro pertencer mesmo que seja confuso escutar a si mesmo ouvindo as vozes alheias tão altas na minha cabeça. Pelo menos eu posso viver coisas incríveis como preparar um bolo para minha melhor amiga e lhe fazer uma surpresa no dia do seu aniversário, posso contar minhas aventuras recém-vividas e podemos rir de histórias que vivemos juntas escrevendo as novas que atravessarão o tempo, e isso é existir.
Também acho, e acabo de me dar conta disso, que a minha urgência por renovação, como: jogar as coisas fora, substituir o velho, os móveis, mudar as coisas de lugar, limpar, consertar… seja um profundo protesto contra as escolhas do passado que hoje já não posso mudar. Como exatamente essa sensação de querer escrever uma nova história a partir de uma folha em branco, pois não sou capaz de consertar os traços de caneta que eu e as outras pessoas aqui escreveram.
O peso do passado é brutal porque está sempre nos lembrando da impermanência da vida. E a única coisa que não dá trabalho, que não exige manutenção é o VAZIO, porque nele nada existe, nem o que nos faz sofrer e nem o que nos faz feliz.
