A liberdade
Talvez a liberdade seja a maior contradição da vida humana.
Como podemos buscar tão incessantemente algo que nunca estaremos prontos para lidar? Mesmo as pessoas mais livres geográfica ou financeiramente habitam suas próprias prisões internas.
Esses dias estava escutando uma palestra da Lúcia Helena Galvão, da Nova Acrópole, que falava sobre um capítulo do livro ‘O Profeta’ de Khalil Gibran dedicado à nossa ‘Habitação’. E ela diz: o ser-humano busca a segurança uns nos outros, aglomerando-se em cidades, bairros, prédios, enfim, mas o próprio ser-humano é o seu maior predador.
A liberdade de viver sozinho assusta muito mais do que os perigos da vida em sociedade. Mas ainda assim nos falta espaço, silêncio, natureza…
Não tenho dúvidas.
Podemos entrar em várias vertentes deste mesmo tópico. Eu vejo que o ser-humano é um ser sociável e necessita dos demais para crescer e evoluir.
Alguém que vive demasiadamente só perde referência de si mesmo.
Alguém que vive cercado por pessoas demais perde a referência de si mesmo.
Segundo Gibran, a sua moradia deve representar um lugar de paz, de elevação, um lugar onde você volta para descansar depois de ter visto e vivido o mundo lá fora. Quando estamos viajando constantemente sentimos falta de um lar, de pertencimento, do conhecido, da estabilidade que uma rotina proporciona, do afeto que só algumas conexões oferecem. Mas também trancar-se na prisão do seu lar, no conforto que foi criado para satisfazer todas essas necessidades intrínsecas do ser-humano pode representar a morte em vida.
Se existe contradição maior que essa, eu citaria apenas talvez a natureza de todas essas angústias: estar sempre desejando algo diferente daquilo que se desejou anteriormente. O desejo é um beco sem saída ou só não queremos ver onde vai dar?
Seria esse o motor de arranque para sair da inércia que o conforto contempla?
Pois bem, se estou presa em uma rotina trivial desejo a liberdade de explorar o desconhecido. Quando estou lá no desconforto profundo do ser, anseio o afago conhecido, talvez o olhar de alguém que me enxergue e que fale o mesmo idioma de vida que eu. Por isso me sinto só no meio de centenas de pessoas, talvez mais só do que quando geograficamente distante no meio de um oceano ou numa ilha escondida. Provavelmente, para sempre irei me sentir assim porque ninguém nunca vai ver a vida sob a mesma perspectiva que eu.
Honestamente, eu acredito que a moral desta história toda é:
Nada que desejamos é concreto. São apenas manifestações do nosso ser. Seja ele evoluído ou limitado, são os desejos que nos guiam, você querendo escutar ou não.
E é aí que entra o maior desafio de ser livre: o poder de escolher qualquer coisa e arcar com as consequências de cada renúncia. Eu arriscaria dizer que é mais fácil viver frustrado seguindo a trilha já traçada por outras pessoas do que optar pelo caminho que tem que ser aberto no facão. Ainda que caminho ‘fácil’ seja relativo, porque frustração pode ser o peso mais árduo de carregar.
E, novamente, eu pergunto: seria a paz uma leveza insustentável?
(Estava eu na casa da minha melhor amiga de infância quando ressaltam as letras deste título diante dos meus olhos “A insustentável leveza do ser”, me soou familiar e de fato, recentemente o indicaram, estou a ler ainda, veio bem a calhar no momento.)
Talvez o que eu tenha aprendido com a liberdade é a necessidade de abrir mão de todas as possibilidades para escolher conscientemente aquelas coisas inegociáveis, de valor absoluto. Além de não mais esperar ser escolhida pelo acaso mas assumir cada necessidade que surge quando estou ausente.
Seria possível carregar em mim todos os aprendizados do desconhecido para habitar um lugar cheio de passado escrevendo um futuro sobre raízes sólidas?
Como enxergas a liberdade?
Sabe quais são as prisões que te aprisionam?
E as chaves que te libertam?
