A Culpa
O paradoxo do individualismo
Como pode uma culpa tão grande tomar conta de todas as minhas certezas?
Minha única vontade (e necessidade) real do momento é:
Dedicar-me à literatura, à arte, à filosofia e apreciar um bom café (invistam em café 100% arábica de torra média, vai por mim). Mas em vez disso, aquele velho e conhecido conflito interno alimentado por perguntas corriqueiras como “quais são seus planos agora?” perfura meus sentimentos mais verdadeiros. Pudera eu responder-lhes com tamanha franqueza sem parecer arrogante, como se eu besuntasse suas faces com minha invejável liberdade de apenas ser?
Sinto como se estivesse em uma estação de trem, aguardando, lendo um livro curiosamente enquanto observo as pessoas apressadas (sem motivo nenhum aparente, por sinal, pois há trens passando a todo tempo). Mas eu fico porque não estou com pressa. Na realidade, ainda não sei exatamente para onde ir. Necessito fazer um esforço tremendo para caminhar sem a pressa coletiva que me move feito uma corredeira entre as estações. Afinal, não há nem mesmo bancos, muito menos sofás confortáveis, para me acomodar nesta espera. Tampouco é um local agradável, um pouco triste, escuro, insalubre que me lembra filmes e até jogos de terror.
Talvez porque seja um pesadelo mesmo estar neste limbo de decisões. Mas eu diria que este pesadelo é somente uma questão de perspectiva. Eu deveria sentir-me extremamente privilegiada por poder pausar a pressa do mundo e lhes dizer: “dedicarei-me a qualquer coisa que desejo agora”. Herdeira? Patricinha? Talvez como uma aristocrata de dois séculos passados que se dedicava aos estudos, viagens curiosas e desenvolvimento pessoal sem nenhuma necessidade de preocupar-se com suas necessidades básicas.
Mas a parte cômica desta história, eu diria, que com tanta pressa para chegar em algum lugar, não por acaso desconhecido, nos esquecemos que alimentar a alma também é uma necessidade básica do ser-humano. E nos perdemos neste vórtice perigosamente destrutivo sem nunca alcançar o centro, o olho do furacão onde, precisamente, existe a paz.
Não é interessante como que as nossas escolhas no presente determinem precisamente o nosso destino mas ainda assim aceitamos caminhar de olhos vendados seguindo o tal apressado fluxo? Como um exemplo, básico e banal, alimentar-se de ultraprocessados ciente de que uma alimentação mais natural lhe proporcionaria melhor saúde agora e nos próximos anos. Ou ainda, insistir em ficar dentro de uma relação falida de amor por pura conveniência também conhecida como preguiça de viver?
Mas está TÃO óbvio! Por que estão todos apontando os dedos como se eu fora ridícula e estivesse enlouquecida por enxergar o suicídio lento e coletivo com tanta clareza?
Pudera eu ser rebelde suficiente a ponto de dedicar-me às minhas amizades? Mergulhar nas relações humanas? Que crime estaria eu cometendo diante da atual conjuntura do individualismo supremo?
Em minhas viagens estimuladas por pura curiosidade e diante de uma verdadeira solidão, percebi através da experiência que sou, aliás todo ser-humano é, um ser social, necessariamente. E sabe por quê? Porque necessitamos uns aos outros para enxergarmos a nós mesmos, precisamos de referências. Como se fôssemos espelhos. Ainda que diferentes, e únicos, cada um reflete, não a imagem que conhecemos ou acreditamos, mas as particularidades intrínsecas incompreendidas ou ignoradas.
Nós JÁ fazemos isso:
Cuidamos do outro como gostaríamos de ser cuidados.
Amamos ao outro como gostaríamos de ser amados.
Odiamos nos outros, e negamos, certos defeitos coletivos.
Sem jamais enxergarmos a nossa própria imagem. É a identificação que nos une, e é ela também que nos afasta.
Incapazes de fazer o bem para nós mesmos, buscamos a salvação sempre de fora, rezamos por esse Deus que nos deu tudo mas sua linguagem é extremamente incompreendida.
Não parece paradoxal que a salvação, afinal, seja tão individual? Deus deve estar rindo lá no alto. Como poderia ser tão óbvio e ainda assim, tão difícil de perceber? O criador foi extremamente didático e intuitivo, pois em vez de criar leis e regras, ele criou a empatia e isso deveria bastar.
Tornar-me profundamente individualista a ponto de curar-me, e portanto, fazer parte de uma cura coletiva ao parar de infernizar a vida alheia com minhas reações traumatizadas por todo o sofrimento das questões mal compreendidas.
Tenho que abdicar dos conflitos e selar um tratado de paz com as minhas escolhas. Voltar-me para mim, repousar no olho do furacão. Não importa o quanto o entorno está correndo. Saber aguardar o trem que realmente vai me levar para onde eu quero ir.
Repousar como escolha é o ato de resistir.
Trago este conto indicado pelo marido daquela amiga que me presenteou com o anel em homenagem à impermanência da vida. Espero que através desta história possa compreender melhor a natureza do pensamento individualista que proponho acima.
